O cidadão que passa por Santana do Riacho, um dos municípios integrantes da Serra do Cipó, fica impressionado com o crescimento da degradação ambiental. Empreendimentos imobiliários se expandem sobre ecossistemas naturais; rodovias mal planejadas cortam as serras; espécies de plantas exóticas se espalham; incêndios criminosos continuam a arder e matar.

Agora mais um! Os resíduos sólidos produzidos em Santana do Riacho são despejados diretamente no solo, sem qualquer medida de proteção à saúde pública e aos frágeis ecossistemas da região. O local do descarte, um “lixão” a céu aberto, localiza-se nas proximidades da estrada de terra que liga Santana do Riacho ao distrito da Lapinha da Serra.

Quem atravessa esta parte do sertão de Minas Gerais depara-se com o triste cenário. O local da deposição de lixo não conta sequer com uma estrutura de proteção adequada. O alambrado que cerca a área está em péssimas condições. Plásticos, isopor e outros resíduos são espalhados pelo vento para os arredores. O depósito inadequado de lixo exala um cheiro terrível e acaba com o magnífico cenário da Serra do Espinhaço. O “lixão” configura-se, portanto, como uma ameaça ao turismo, atividade que vem se consolidando na região e representa uma das principais fontes de renda para a população local.

“Lixões” também podem gerar outros problemas. Eles contaminam o solo e o lençol freático com o chorume que é produzido pela decomposição da matéria orgânica. Emitem metano, gás inflamável que pode causar explosões. Atraem animais transmissores de doenças, como ratos, baratas e moscas. Moradores da Lapinha da Serra relatam que nos últimos tempos o número de moscas varejeiras encontradas no interior das casas aumentou assustadoramente. Segundo os nativos as moscas vêm do depósito de lixo “de carona” nos caminhões que recolhem os resíduos sólidos no lugarejo.

Em qualquer município o descarte de resíduos em “lixões” é inaceitável, tanto pelos aspectos ambientais como pelos sociais. No caso de Santana do Riacho, o descaso do poder público agrava-se por se tratar de uma região com altíssima biodiversidade e de extrema importância para a conservação. O município é inserido em uma unidade de conservação federal, a Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira e também se localiza no interior da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, que foi criada pela UNESCO em 2005 com o objetivo de conservar os recursos biológicos, geomorfológicos e históricos da região.

É vital que Santana do Riacho encontre uma forma apropriada de gerir os resíduos sólidos e consiga conciliar o desenvolvimento econômico com adequadas práticas ecológicas e sociais. Em 2010 foi aprovada a Lei 12.305 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos e proíbe os “lixões”, obrigando as prefeituras a destinarem a aterros sanitários os materiais que não podem ser reciclados e reutilizados. Faça-se cumprir!

 

Artigo publicado no Jornal O TEMPO em 18/05/2012

Fernando M. Resende – Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre – UFMG

Geraldo Wilson Fernandes – Professor Titular, Departamento de Biologia Geral – UFMG