Hidrelétrica não tem descarga para o volume de 30% disponível hoje e que poderia abastecer municípios no entorno da represa

 
Uma falha no projeto da usina de Três Marias impede que o volume morto da represa seja usado: a hidrelétrica foi construída sem a descarga de fundo. Com isso, apesar de 30% do reservatório estar disponível, ele não pode ser usado para fornecer água para os municípios ribeirinhos localizados a jusante da represa, segundo o Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF) e o Consórcio dos Municípios do Lago de Três Marias (Comlago).

A secretária nacional do CBHFS e coordenadora-geral do Comlago, Sílvia Freedman, afirma que por erro na época da construção não foi considerado no projeto o mecanismo que permitiria a saída de água mesmo em nível inferior às comportas. A inexistência só foi revelada pela Companhia Energética do Estado de Minas Gerais (Cemig) em reuniões nos últimos meses devido ao fato de a usina ter atingido seu nível mais baixo desde a construção, mais de 50 anos depois da obra. “(Se a represa estivesse cheia) Ninguém ia saber que não tem”, afirma Sílvia. Uma solução paliativa seria o bombeamento da água para continuar o fornecimento em processo semelhante ao adotado em São Paulo com o sistema Cantareira.

A Cemig, no entanto, sinaliza que não será necessário usar o volume morto. O planejamento da empresa considera que o início do período chuvoso garantirá o enchimento da represa. Segundo a estatal, a vazão afluente de Três Marias está em 15% da média histórica, com 30 metros cúbicos por segundo chegando na represa. A saída mínima para o funcionamento da máquina é de 100 metros cúbicos por segundo. “No entanto, essa vazão seria preocupante caso o reservatório chegasse a 0% do volume útil”, afirma o gerente de Planejamento Energético da Cemig, Marcelo de Deus Melo.

Apesar de cálculos do Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco indicarem que a represa atingirá o volume morto, a Cemig prevê que no final de outubro a represa terá 3% do volume útil e que, a partir de então, se iniciará o período das chuvas, o que poderá promover o reenchimento.

Trabalhos

O procurador do Ministério Público Federal em Sete Lagoas, Antônio Arthur Barros Mendes, afirma que a Agência Nacional de Águas (ANA), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Cemig trabalham juntos para evitar que volume útil do reservatório se esgote. No início de outubro, nova redução da vazão está prevista. Os modelos matemáticos usados para a gestão consideram dados “conservadores” da série histórica de chuvas. A previsão é que haja retomada da caixa d’água em meados de outubro, mas, caso isso não aconteça, a região irá enfrentar uma situação até então “não experimentada”. “Tentamos evitar uma consequência nefasta”, diz ele.

O MPF iniciou a coleta de dados das atividades econômicas prestadas nos municípios situados a montante da barragem. Uma possibilidade é que empresas sejam forçadas a racionar água para reduzir a captação. Mas tal definição, por enquanto, está em estudo. Apesar das conversas para mediar conflitos sobre o uso da água até o início do período chuvoso, o procurador ressalta que “o reservatório não se recupera em um ano”.

 

Pedro Rocha Franco
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