Com mais de 1.000 Km de extensão sentido norte sul, a Serra do Espinhaço figura como a única cordilheira brasileira. Indo de Altamira, distrito de nova União, MG, ao norte da Chapada Diamantina, na Bahia essa cordilheira representa uma importância única tanto para a história do Brasil quanto em relação à biodiversidade e recursos minerais que possui, com destaque para a água o diamante e mais recentemente o ferro.

Famosa por sua beleza cênica e por suas cachoeiras e balneários algumas regiões da Serra do Espinhaço representam importantes destinos turísticos. Turismo este motivado tanto pela biodiversidade e belas paisagens quanto pela história e culturas locais. Dentre estas regiões destacam-se a Serra do Cipó, Diamantina, Milho Verde em Minas Gerais, e a grande Chapada Diamantina na Bahia composta por seus 24 municípios.

Devido às condições climáticas impostas pela altitude, as montanhas em geral tendem a possuir uma comunidade biológica diferente do seu entorno. As montanhas que compõem a Serra do Espinhaço possuem muito mais afinidades biológicas com as outras montanhas da América do Sul do que com as áreas mais baixas em seu entorno.

No sul da Serra do Espinhaço, à leste desta, o bioma predominante é a Mata Atlântica. Nestas mesmas latitudes, à oeste, predomina o cerrado. A região montanhosa, embora apresente enclaves tanto de Mata Atlântica quanto de Cerrado é composta majoritariamente por um tipo de vegetação conhecido como Campos Rupestres. Os Campos Rupestres, apesar de a primeira vista se assemelharem a pastos monoespecíficos, configuram em um dos mais ricos ecossistemas montanhosos do mundo. Com cerca de 30% de sua vegetação sendo considerada endêmica, e com grande número de endemismos em outros táxons, como as aves e anfíbios, é de suma importância que se crie medidas de proteção à mesma. Ao norte, a Serra do Espinhaço é circundado por um ambiente bem mais xérido do que ao sul; por isto o bioma predominante nesta região é a Caatinga. As montanhas então são ocupadas por plantas que possuem mais adaptações à seca, como espinhos, gemas subterrâneas e a capacidade de se livrarem das folhas. Esta vegetação é conhecida como carrasco e representa um desafio aos transeuntes e viajantes devido à quantidade de espinhos associados à declividade.

As montanhas, de maneira geral, tendem a receber um volume de chuva muito maior do que as terras baixas que as cercam, as chamadas chuvas orográficas. Este fenômeno confere às montanhas a capacidade de armazenar água. A água em seu estado líquido sempre flui dos lugares mais altos para os mais baixos, logo conservar montanhas é garantir a existência de nascentes, córregos e rios nas terras que as cercam. A Serra do Espinhaço, neste sentido apresenta uma importância em nível nacional pois suas montanhas abrigam nascentes de importantes cursos d’água brasileiros. Dentre estes cursos d’água destacam-se as bacias dos Rios São Francisco (considerado o rio na união nacional), do rio Doce, do rio Jequitinhonha, do rio das Contas e rio Paraguassú.

Há cerca de 300 anos que a Serra do Espinhaço sofre com ação do gado e do fogo, muito associado à esta atividade para renovação dos pastos. Certamente este é o impacto que há mais tempo essa Serra está exposta desde a chegada do europeu às Américas. Hoje em dia porém, com a exaustão dos depósitos mais ricos em ferro do quadrilátero ferrífero (conjunto de montanhas imediatamente ao sul da Serra Do Espinhaço) a mineração do ferro tem cada vez mais ameaçado a biodiversidade no espinhaço e a disponibilidade de água limpa nas comunidades e cidades que a cercam.

Devido à sua enorme extensão, altíssima quantidade de espécies, dificuldade de acesso, grande distância dos grandes centros de pesquisa brasileiros e a falta de pesquisadores e taxonomistas no Brasil, a Serra do Espinhaço ainda possui uma série de espécies de todos os táxons ainda não descritos. Espécies estas que muitas vezes podem ser extintas antes que nós as conheçamos.

É de suma importância que os brasileiros conheçam não só a Serra do Espinhaço, mas que também tenham a noção de sua importância para a conservação da biodiversidade, de diversas manifestações culturais e principalmente de água limpa, bem que se torna cada vez mais escasso e por isto mais precioso em nossa sociedade.

Leonardo Cotta Ribeiro.